Até parece que foi ontem!
Minha chegada nesta cidade (anos 80), do
Extremo Sul da Bahia considerada , a
"Rota do Descobrimento do Brasil", em busca de mudanças que
visavam alcançar êxito econômico-financeiros, foi de fato muito inusitada!
Isto porque, eu já conhecia a região, em
razão de passar férias na casa de meu cunhado aproveitando a beleza do sol e
das praias aqui existentes, sem sequer ter cogitado em tempo algum, o desejo de
vir morar por estas bandas.
São fatos que acontecem inesperadamente, principalmente
ao aceitar convite às cegas. Visitar é muito diferente de mudar a vida de
lugar. Mesmo assim, cá estamos até então.
Muito trabalho durante anos a fio para conquistar certa "marola".
Não é uma região igual as outras, além dos
hábitos culturais, o povo em sua maioria são forasteiros, como eu mesma vindos de estados
fronteiriços do sudeste e sul do Brasil , o que possibilitou uma miscelânea de
cores, sabores e costumes , a partir da harmonia com os nativos ( indígenas, os
verdadeiros donos das terras) enveredando por caminhos cheios de curiosidades,
contrastes e humor, que evidentemente podem ser boas e inesgotáveis.
Cito como exemplo, uma afirmação do meu afilhado: "quando a coisa é boa madrinha podemos comer com farinha da boa,
ou seja a fina e torrada"...chamamento interessante que me fazia sorrir!
Mas, o que mais me encantava era a força
da cultura já aculturada , frente aos festejos e comemorações que se arrastaram
por anos a fio. Como por exemplo aqueles relacionados a São Cosme e Damião e o São João.
Tais festejos eram tão fortes, que
ultrapassavam aqueles considerados importantes em terras próximas (Natal,
Réveillon, Carnaval, etc.) e irrelevantes por aqui.
A natureza de desenvolvimento econômico e
cultural, ali estavam engajados, de tal forma que os lojistas, feirantes,
moradores rurais, dos estabelecidos na zona urbana, e na alegria política dos
gestores em oferecer o melhor para os conterrâneos.
Enfatizando, que o cacau (fruto regional) era o produto elevador da subsistência, dos ricos
regionais fazendo valer o título de "ouro" circulante.
Era puro êxtase... loucura geral para um
excelente faturamento, que garantia a tranquilidade de muitos para o restante do ano.
Todavia, qualquer elo que se quebre de uma corrente, tudo passa a desandar, ou seja soltam-se todos caindo em diferentes direções. Neste caso, a queda efetiva do "ouro" provocado por pragas resistentes aos tratamentos de cura.
As decepções sobre as
pessoas que formavam a sociedade local era insuportável. Puro preconceito e uma notável desigualdade social!
O difícil mesmo era suportar agruras de
criaturas tão arrogantes, com pretensões onipotentes e onipresentes, sobre os
menos abastados...sem contar que alguns destes últimos fingiam-se poderosos do "cacau" também. Era bestial!
Assim pude verificar, como de fato a
burguesia, tão falada nos livros de filosofia e sociologia se apresentavam,
aqui, para mim ao vivo e a cores.
Não como telenovelas, e sim nua , crua e
vergonhosa no fator "subjugar".
Cujo senhor cidadão do
trabalho principal, do plantar e colher via-se
humilhado e derrotado em sua própria região e no fruto do seus esforços. Ai que dó!
Somente os bons deveriam estar presentes durante as festividades, com
honras sei lá do quê! E assim foram se perdendo os gostos pelas tradições culturais regionais.
E, a partir daí surge, o meu ponto de reflexão,
sobre o desaparecimento, ou quem sabe, sobre o desinteresse sócio-político, mais político do que social, para que os eventos culturais continuassem
valorosos e com igualdade de proveito para todos.
Neste panorama questiono:
Onde se
encontram, os afamados direitos e deveres , do cidadão, afinal?
- Será
que o fato do "ouro" desaparecer , as tradições
culturais regionais esvaíram-se com ele?
- Ou será que o desinteresse
sócio-político e suas gestões escolheram "economizar" ,
em detrimento daqueles que mais se alegravam com os festejos... os menos
abastados?
- E a sociedade local cala-se em razão do
quê mesmo? Medo das represálias Politico-sociais, contratuais, empregatícias, religiosas, ou sequer sabem
preservar, até mesmo os jovens mais ousados, suas mais lindas características e costumes culturais?
- Renderam-se
aqueles que acreditam possuir riquezas, sem pensar no bem estar geral da população regional, que faz crescer a região com seus trabalhos diversos?
Que pena!
Pura frustração para mim, ao acreditar no
valor intrínseco, (inerente/relevância) do ser humano, em saber promover a solidariedade e a felicidade do semelhante!
As ações passaram a total individualidade, apenas visam o próprio umbigo!
Na piada..."farinha pouca, meu pirão primeiro", e desta forma somos considerados o comercinho do meio, sem quaisquer direitos. Tudo acontece na "marra"... Ai que tristeza, meu DEUS!
Felizmente afirmo e confirmo, que durante
a minha infância e adolescência, na cidade de Salvador/BA, capital, minha gente! Em se tratando das festividades de São João, lá reinava a felicidade.
Nossas casas, ruas e avenidas se preparavam, sem dependências
humilhantes, mas sim através da união de pessoas solidárias, as quais
entregavam-se ao trabalho e a seguir, bem arrumados e perfumados deixavam suas portas
abertas para confraternização geral de suas comunidades.
Cada uma, dentro de suas possibilidades
momentâneas, onde as quadrilhas se apresentavam, sanfoneiros tocavam e cantavam , as fogueiras eram acesas, muitos fogos lançados, oferecimento de licores , queijos tipo Reino, pamonhas, canjicas, amendoins, milhos cozidos e
assados, entre outras iguarias eram partilhados, namoricos iniciavam, etc... e a
verdadeira alegria contagiava toda a cidade, sem pompas de reis ou rainhas,
todos eram iguais ( religiosos, ou não, negros, brancos, amarelos, vermelhos, mestiços, gordos, magros, ricos, pobres, etc) naqueles maravilhosos eventos, a partir do mês de Maio com as "rezas para MARIA", Santo Antônio, São João e S.Pedro.
Este era o mundo bom!
Há de convir que algo está desandado por
aqui!
Que pensemos sobre isto.
Abração e FELIZ SÃO JOÃO à todos!
"O destino de cada um é a própria felicidade; é o programa com o qual DEUS o individualizou"(Z. Gasparetto).
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